Um (não) encontro do destino
Este livro que serve de debut para a escritora Josie Silver, Um Dia em Dezembro (Planeta, 2018) é um romance, ao estilo de Love Actually, repleto oportunidades perdidas, e um conjunto de decisões erradas, que vão derivar numa década de desejos reprimidos e um amor adiado.
(...) Porque como é possível fartarmo-nos de ver um tipo qualquer desgraçado ali ao frio e a mostrar em silêncio cartazes a declarar à mulher do seu melhor amigo que o seu coração devastado a amará para sempre? Embora... isso é romantismo? (...) Quer dizer, meio que é, de uma maneira sentimentalóide, mas o tipo está também a ser o pior amigo do planeta.
Silver apresenta-nos uma história, repleta de contornos românticos, aliados à triste realidade da vida. A história segue dois jovens londrinos que trocam olhares por breves, mas intensos, momentos.
Aqueles momentos, caso pertencessem a um dos filmes que Laurie tanto gosta de ver, iriam estabelecer uma grande história. Eles irião encontrar-se, apaixonar-se perdidamente e viver felizes para sempre. Mas sendo a realidade nua e crua, tudo corre mal.
Não se encontram, não falam, não trocam números de telefone, ou nomes sequer. E irão ambos passar muito tempo em busca um do outro.
O que se seguem são vários momentos na vida de ambos, divididos numa dupla narrativa, quer do ponto de vista de Laurie, quer do de Jack.
A narrativa é agradável, focada em momentos chave, sem floreados exagerados, descrevendo a dinâmica entre Laurie e Jack com o passar dos anos, um misto de tensão e carinho, que confere à história um carácter verosímil, real, com o qual qulaquer leitor se poderá identificar.
"O autocarro pára com um solavanco no fim da rua e observo (...)
Está um tipo empoleirado num desses assentos rebatíveis no abrigo da paragem do autocarro. (...)
Fitamo-nos a direito um ao outro e não consigo afastar o olhar. (...) Acomete-me a necessidade esmagadora de ir lá para fora ter com ele. Mas não o faço."
Laurie, a rapariga que não acredita em amor à primeira vista, a não ser nos filmes, depara-se com a maior surpresa da vida dela quando numa tarde de Dezembro, através da janela do autocarro, repara num rapaz absorto na sua leitura, um peixe fora d'água naquela paisagem caótica, de correrias, empurrões e agitação.
Eis que ambos entrelaçam olhares e sentem uma ligação imediata, desejando estar um com outro, mas quis o destino, que as portas se fechassem e o autocarro partisse sem que os dois se pudessem ter conhecido realmente.
Laurie passará um ano numa busca frenética pelo Rapaz do Autocarro, encontrando em Sarah, a sua melhor amiga/irmã por afeto, um apoio na sua caça pelo rapaz que tanto a impressionou.
Mas a vida consegue pregar partidas e nada poderia preparar Laurie para o que viria. Na festa de Natal de Sarah, esta apresenta-lhe Jack, o "amor da sua vida", que coincidentemente, por obra do acaso, e como se de uma tragicomédia se tratasse, é o rapaz que Laurie tanto procurou.
"Abro a boca para dizer olá e depois vejo a cara dele. (...)
Tinha quase desistido de encontrar o Rapaz do Autocarro, apesar de Sarah jurar que falei tanto dele que até o reconheceria sozinha.
Não reconheceu afinal. Em vez disso, apresentou-mo como o amor da sua vida."
Ambos se lembram daquela tarde de Dezembro, mas pelo bem de Sarah, decidem sacudir essa memória para trás das costas e tentar estabelecer as bases para uma amizade verdadeira, para o bem de todos.
Afinal nada tinha acontecido entre eles, além de uma troca de olhares repletos de intensidade e emoção.
"É a única vez que nos beijaremos. Ele sabe-o, eu sei-o, é tão dolorosamente melancólico-sexy que sinto as lágrimas a ameaçar correr de novo.
(...) Os olhos dele estão fechados, as pestanas húmidas da neve uma mancha escura no seu rosto, toda a sua atenção concentrada no nosso beijo de uma-vez-na-vida."
O que se seguem são momentos de estranheza e ausência, carregados de sentimentos de culpa, não só porque se tratou de uma traição a Sarah, a quem ambos tantos amam, mas porque foi o acordar de sentimentos adormecidos.
Mas a vida continua para os protagonistas desta história, que se vão ver envolvidos numa série de encontros duplos, celebrações e algumas separações, no espaço de uma década, onde ambos irão flirtar, naturalmente, um com outro, e ao mesmo tempo reprimir o que sentem, em prol da sua amizade.
"-Alguma vez pensas e se..."
Um Dia em Dezembro, de Josie Silver, é um encanto de história, sobre um amor à primeira, e uma amizade duradoura, que ultrapassa todas as tristezas e barreiras da vida. Uma história "real", repleta de sentimento, de perdas e de perdão, que irá deslumbrar os corações dos leitores.

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