Maldição a bordo
- Depois de ter sido obrigada a usar o colar na viagem pelo mar quando foi levada como refém para Roma, Cleópatra lançou uma maldição sobre ele: "Quem usar este colar no mar, jamais chegará vivo a terra."
Em Negro como o Mar, de Mary Higgins Clark (Bertrand, 2019), a inauguração de um navio de cruzeiro é palco de um sem fim de ocorrências estranhas, desde roubo a assassinato.
Um assassino hábil, vários suspeitos e uma maldição tornam esta história num thriller de acção lenta mas final satisfatório.
O magnífico navio de cruzeiro Queen Charlotte estava prestes a zarpar para a sua viagem inaugural do embarcadouro no rio Hudson. Apresentado com a promessa de vir a tornar-se um ícone de luxo, o navio fora comparado ao primeiro Queen Mary e ao Titanic, que representavam o luxo máximo cem anos antes.
Ao comparar o Queen Charlotte ao navio mais assombrado da história e ao navio mais trágico, Mary Higgins Clark criou o palco adequado para o desenrolar do seu enredo.
E como se a esta comparação fatídica não fosse prenúncio suficiente da tragédia que iria desenrolar-se a bordo, foi adicionada uma maldição à equação, o maravilhoso colar de Cleópatra que traz consigo uma praga egípcia, digna da reputação que só um excelente artefacto egípcio possui.
Mary Higgins Clark cria um enredo que evolui a passo lento, mas constante, dividindo a ação em dias, apresentando os intervenientes e a ligação entre eles, ao mesmo tempo que fornece ao leitor detalhes da vida de cada um.
Entrelaçados os caminhos e explicadas as relações entre todos, cabe a Celia, ao colar de Cleópatra e a sua portadora, Lady Em, tomarem o palco frente e centro, levando a que todos suspeitem uns dos outros e temam estar sozinhos.
O proprietário do navio fica em contínuo estado de minimização de danos para evitar má imagem na imprensa, os passageiros em alerta e intimidados, e um ladrão audaz busca incessassemente a jóia pela qual se arriscou tanto.
Em vez de se dirigir para o camarote, Celia Kilbride ficou junto ao corrimão do navio, a observar a passagem pela Estátua da Liberdade. O seu tempo de permanência no navio seria inferior a uma semana, mas era o suficiente para escapar da penetrante cobertura jornalística da detenção de Steven na noite do ensaio do casamento, vinte e quatro horas antes do evento. Só tinham mesmo passado quatro semanas?
Celia, uma jovem gemóloga de renome, após descobrir a traição do seu noivo, e para afastar-se um pouco do caos que este tinha provocado na sua vida, aceita a proposta para ser uma dos vários oradores nas palestras oferecidas a bordo da passagem inaugural do navio de cruzeiro Queen Charlotte.
Mas o que inicialmente parecia uma bóia de salvação pode vir a tornar-se a sua perdição.
Nesta viagem irá encontrar caras, já de si, conhecidas, entre os passageiros. Uma das quais é Lady Em, uma das melhores clientes do estabelecimento para o qual trabalha, Carruthers Jewelers, onde a estimada senhora leva, regularmente, a sua imensa coleção de jóias para serem avaliadas e cuidadas.
Uma antiga modelo, viúva e muita rica, Lady Em decide anunciar a todos que irá usar o colar de Cleópatra durante a sua viagem para posteriormente o ceder ao Smithsonian.
O que ela não esperava era que essa notícia iria aguçar o interesse do famoso ladrão, o Homem das Mil Caras, e as repercussões que daí iriam advir.
O Homem das Mil Caras, ladrão procurado em sete países, detentor de um modus operandi curioso, anuncia os artigos que planeia roubar, e publica pormenores do crime nas semanas que seguem ao furto.
Será a presença anunciada do Homem das Mil Caras, que levará Devon Michaelson, agente da Interpol a marcar presença nessa viagem.
A partir de uma conta de email não identificável, alguém que alegava ser o Homem das Mil Caras publicitara o seu desejo de possuir o colar de Cleópatra. (...)A Castle Line já estava a par da ameaça quando Devon contactou a companhia. Concordaram rapidamente em colaborar.
Encarregado de perseguir e capturar o elusivo e desconhecido Homem das Mil Caras, Devon cria um alias de forma a não ser reconhecido, tranformando-se num viúvo devastado pela perda, que irá despejar as cinzas da mulher ao mar.
Quem claramente parece mantê-lo debaixo de olho é Anna DeMille, que ganhou a viagem numa rifa do sorteio da Igreja e que claramente, anda em busca de marido.
Atentos a isto e muitas outras situações relevantes estão Willie e Alvirah Meehan, um casal de pessoas comuns que tiveram a felicidade de ganhar na lotaria e mudar a sua vida.
Willie é muito protetor da esposa, ao passo que Alvirah além da coluna que escreve para o jornal, tem o dom da investigação, sendo uma "detetive" amadora que auxiliou em alguns casos.
Vão captar pedaços de informação referentes a todos os passageiros, e nada passará despercebido aos seus sentidos aguçados.
É assim que denotam que algo está errado com a assistente pessoal/ companheira de viagem de Lady Em, Brenda Martin e o casal Pearson.
Brenda é assistente de Lady Em há mais de duas décadas e parece estar a chegar ao limite da sua paciência; Roger e Yvonne, são casados mas em nada, um casal. Roger é o gestor de investimentos e executor do património de Lady Em, e Yvonne, uma mulher apaixonada pelo estilo luxuoso de vida que leva, disposta a tudo para não perdê-lo.
Raymond Broad é um mordomo, dado a pequenos furtos, encarregado da suite de Lady Em; e Henry Longworth, um professor de renome, reconhecido pela sua especialidade em Shakespeare. Tal como Celia, foi convidado como orador para as palestras oferecidas pelo cruzeiro.
Ted Cavanaugh, advogado, filho de um ex-Embaixador da Grã Bretanha, tem ligações muito fortes ao Egito, onde o pai tinha desempenhado funções de adido diplomático, e onde viveu parte da sua vida.
Ao saber que Lady Em irá usar o colar de Cleópatra na viagem, dispõe-se a tentar conversar com ela, de forma a expôr os factos que o levam a desaprovar a entrega do colar ao Smithsonian.
Mas um evento imprevisto, uma morte a bordo, que irá assombrar os passageiros, dúvidas irão surgir em termos de segurança, culpabilidade e inocência.
No momento em que começaram a dispersar e a desejar-se mutuamente bon voyage, os passageiros do navio não tinham como saber que pelo menos um deles não chegaria a Southampton vivo.
Conseguirão eles descobrir o assassino antes de atracar? De entre todos os que tinham motivo para eliminar Lady Em, qual será o culpado?
Negro Como o Mar, de Mary Higgins Clark, é um thriller agradável, com algumas semelhanças ao jogo Cluedo. O típico who dunnit?, Negro como o Mar é um livro que cozinha em lume brando e entrega o tão desejado prémio no final.

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