sábado, 8 de junho de 2019

“Uma Verdade Simples” de Jodi Picoult


Neste livro da autora popular americana Jodi Picoult, cuja ação é sublinhada pela descoberta de um neonato morto num celeiro Amish, o que conduz a um choque de culturas, Pessoas Simples vs Englischers, bem como a um confronto emocional e racional, e ao desenvolvimento das relações interpessoais entre as personagens principais e os restantes intervenientes que as rodeiam, Uma Verdade Simples (Bertrand, 2018) é uma história de suspense que prende o leitor desde a primeira página.

Um bebé morto e não identificado, uma mãe desconhecida que o abandonou. E tudo isto no meio de uma quinta amish.

Embora toda a premissa inicial do livro gire em torno do crime, da presumível culpabilidade de Katie Fisher, a progenitora do bebé, e das diferenças entre as Pessoas Simples e as do mundo exterior a essa comunidade; esta história vai mais além do típico suspense, o crime que tem que ser resolvido e julgado, introduzindo uma componente pessoal à narrativa e às personagens, de forma congruente, apelativa, credível e acima de tudo, emocionante.

A narrativa compele a uma leitura compulsiva desde a primeira página até ao final das 477 páginas.

Acabou tão subitamente quanto começou. E, deitado no feno acachapado e manchado, havia um bebé entre as suas pernas. (…) – Meu Deus – rezou -, faz com que isto desapareça, por favor.

Existem diversos momentos, onde, para entendermos as decisões tomadas no presente, a autora transporta o leitor ao passado, evidenciando momentos pontuais e cruciais da vida de Katie e Ellie.

É difícil não sentir um misto de emoções contraditórias em relação Katie, a jovem acusada de ter assassinado o próprio filho, após o seu nascimento do mesmo, sendo a única suspeita plausível do crime, o que poderá parecer estranho a início mas à medida que a história se vai desenvolvendo, e entramos no mundo Amish, através dos olhos de Ellie Hathaway, tudo começa a fazer sentido. As peças começam a encaixar, não só em relação ao caso mas em relação à vida privada de todos os intervenientes, começamos a entender Katie e o seu comportamento errático, e até mesmo, a simpatizar com ela.

Não era pessoa de acreditar no destino, mas tinha escapado por um triz e isso não podia deixar de ser um sinal; como se precisasse literalmente que me fizessem parar para perceber que tinha andado a correr na direção errada.

Ellie, uma advogada feroz na defesa dos seus clientes, desiludida consigo mesma, com as decisões que tomou, e com a sua relação estagnada, vai deparar-se com uma das situações mais complexas da sua vida, e perante o caso, toma uma decisão que vai afetar, não só a vida de Katie e dos Fisher, mas também a si mesma.

Katie, a jovem Amish, que se recusa terminantemente a admitir que teve um filho, vê a sua vida do avesso, quando as verdades do passado invadem o presente, mas serão essas verdades o suficiente para provar a sua culpabilidade ou inocência?

 – (…) vou mostrar-vos que aquele bebé pode ter morrido por uma série de razões. (…) Vou mostrar-vos porque é que os Amish não cometem homicídio. E, mais importante ainda (…) vou deixar Katie Fisher contar-vos a verdade.

Os Fisher, pais de Katie, são extremamente ligados às regras da sua comunidade e da sua igreja, produtores de lacticínios e tabaco. Aaron, um homem intransigente, que apesar de amar os filhos, se nega a aceitar qualquer situação que desrespeite as regras; Sarah, uma mãe que sofre com as decisões do marido mas as aceita sem oferecer oposição.

Chegamos a Leda, ponto de ligação entre Katie e Ellie, banida da comunidade por se ter casado com  um menonita e a Jacob, único irmão restante de Katie, que após ser banido por querer seguir os estudos, foi repudiado por Aaron, e proibido de qualquer contacto com a irmã mais nova.



A início a frieza e impassividade dos Fisher, irá chocar não só a Ellie, que terá de viver com eles e acompanhar Katie a cada instante, mas também o leitor, em especial aquele que não saiba o funcionamento de uma comunidade Amish e os ideais que defendem.

Pouco a pouco, essa atitude, aparentemente, tão gélida e desapegada, dá lugar a um entendimento mais profundo das relações familiares, comunitárias e religiosas.

Ellie, que se recusava a aceitar ter que permanecer ali na quinta, isolada de tudo, até o fim do julgamento, começa a entender partes de si própria, ao mesmo tempo que recebe uma surpresa do passado.

Cooper irá ajudá-la a compreender o que se passa com Katie e abalar as suas resoluções referentes ao passado e presente de ambos.

O problema aqui é que há muito tempo que a Katie deixou de ser uma cliente. Talvez até desde o início. (…) Mas os sentimentos que nutres por ela são um mistério, pois, para todos os efeitos, a Katie descartou algo que tu matarias para ter: um filho.

A ligação entre Ellie e Katie irá mais longe do que a de uma simples advogada e cliente, mas a dúvida persiste até ao final.

Será Katie inocente ou culpada deste crime?

– Isto era meu (…) Esta memória era a única coisa que me restava. E tu revelaste-a.
– Fi-lo para te salvar.
– Quem disse que eu queria ser salva?

Uma Verdade Simples, de Jodi Picoult, é um livro de suspense, repleto de situações dramáticas, que envolve o leitor na cultura Amish, nos processos jurídicos e de investigação criminal, ao passo que o embrenha nas emoções das personagens, nas suas dúvidas e receios, alegrias e tristezas, fazendo-o esquecer, parcialmente, da premissa original. É um drama contagiante, emocionante e surpreendente.

“Enquanto o Tempo Passa” de Mary Higgins Clark



Neste novo livro da escritora americana bestseller Mary Higgins Clark, cuja ação é sublinhada pela cobertura de um caso judicial mediático, que vai interligar, num golpe do destino, a vida de duas mulheres em busca da verdade, Enquanto o Tempo Passa (Bertrand, 2018), é um thriller interessante, misterioso e curioso, repleto de reviravoltas.

Delaney sentou-se junto aos outros jornalistas na primeira fila, a qual já estava reservada para a imprensa. (…)
A porta abriu-se e a ré, Betsy Grant, entrou na sala, de cabeça erguida, ladeada pelos seus três advogados.

Mary Higgins Clark, é uma das autoras mais conhecidas e populares da atualidade, no âmbito do suspense, mistério e thriller psicológico, com mais de 150 milhões de títulos vendidos mundialmente, vários deles, bestsellers na Bertrand Editora.

Clark, traz uma história envolvente, duas situações, aparentemente sem ligação, que vão prender o leitor, e levá-lo a resolver o mistério rapidamente.

É uma história fluida, com uma premissa estimulante, embora o facto de ser passada, maioritariamente, numa sala de tribunal torne as coisas, por vezes, um pouco monótonas.

Apesar de crer que a identidade do verdadeiro assassino de Ted Grant é, relativamente, fácil de identificar, e algumas histórias paralelas permanecerem como pontas soltas, esta é uma obra que se lê do início ao fim, de um só fôlego, e não desilude o leitor, porém está um pouco aquém da qualidade dos títulos iniciais da autora.

As personagens principais, Delaney Wright e Betsy Grant, são duas mulheres independentes e de carácter forte.

Semelhantes em vários aspetos, físicos e psicológicos, ambas têm um segredo e procuram descobrir a verdade, custe o que custar.

Delaney já tinha visto peças televisivas e fotografias de Betsy Grant na Internet, mas ainda assim ficou surpreendida com o aspeto jovem da ré de quarenta e três anos.

Betsy Grant é a viúva do médico Ted Grant, a quem é acusada de assassinar.

Segunda mulher de Ted, e madrasta de Alan Grant, vê a sua vida virada do avesso quando após a morte do marido, que padecia de Alzheimer, descobre que este não faleceu de causas naturais, tendo sido assassinado em casa de ambos, enquanto ela dormia.

Mulher nos seus quarenta anos, atraente e inteligente, com um segredo que a atormenta, Betsy torna-se o principal entretenimento, no circo mediático montado em torno do seu julgamento, do qual a jornalista Delaney Wright está a fazer a cobertura.



Delaney, uma jovem jornalista, entusiasta de casos jurídicos mediáticos, está no auge da sua carreira, quando lhe oferecem o cargo de co-apresentadora na estação em que trabalha.

Mas Delaney não se sente tão entusiasmada como todos julgam que deveria estar, e o seu sentimento de estar incompleta, leva-a a procurar a verdade sobre si própria e os seus progenitores, conduzindo à revelação mais chocante e surpreendente da sua vida.

Delaney limitou-se a acenar com a cabeça. Sabia que o nó que tinha na garganta estava prestes a dar lugar a uma enxurrada de lágrimas. (…)
Precisava encontrar a sua mãe biológica.

Para isso, conta com a ajuda de Alvirah e Willy Meehan, um casal amigo. Alvirah é um ratinho curioso, e quando se depara com um mistério, tem que o resolver ou desespera.

Willy, não tem muita opção de escolha, a não ser acompanhar a sua esposa nas suas aventuras de detetive amadora.

Viajando até Filadélfia, seguindo diferentes pistas, o casal Meehan encontra em Cora Banks, a parteira que ajudou Delaney a nascer, todas as respostas, mas estará Delaney preparada para a verdade?

Em simultâneo, a estas duas histórias principais, envolvendo Betsy e Delaney, existe uma história paralela com Jonathan Cruise, jornalista de investigação no Washington Post, interessado em Delaney, que está a tentar desmascarar um círculo de farmacêuticos, que estava a obter receitas ilícitas de médicos, e a vendê-las a pessoas de alta sociedade, conduzindo à morte de Steven Harwin, filho de Lucas Harwin, um realizador galardoado, que vê em Jon a solução para resolver o mistério da overdose do filho.

A situação matrimonial de um casal amigo dos Grant, envolvidos numa altercação com Ted, durante um jantar, na noite da morte deste, e a convicção do Dr. Scott Clifton na culpabilidade de Betsy, serão também pontos de relevância, abordados no decorrer da narrativa.

Todas estes enredos, vão provocar voltas e reviravoltas, e conduzir a descobertas que vão influenciar a vida dos diversos intervenientes da história.

Enquanto o Tempo Passa, de Mary Higgins Clark, é um thriller que vai captar a atenção do leitor, despertar o seu detetive interior, e demonstrar como o destino sempre conduz à descoberta da verdade, passa o tempo que passe.

“O Domingo das Mães” de Graham Swift


Neste novo livro de Graham Swift, autor bestseller internacional e do Sunday Times, sublinhado por um evento de proporções trágicas que vai despoletar o renascimento de Jane Fairchild, O Domingo das Mães (Presença, 2018), é um pequeno conto que vai relatar eventos, denominadamente um em especial, que conduziram Jane, serviçal numa casa senhorial Inglesa, pós 1ª Guerra Mundial, a alterar o seu percurso de vida e a tornar-se numa escritora famosa.

Quando nas entrevistas lhe pediam para descrever a atmosfera daqueles tempos de guerra (referindo-se, é claro, à Primeira Grande Guerra), ela respondia que já se passara tanto tempo e o mundo era tão diferente que tentar recordá-la era um pouco como… escrever um romance.

Graham Swift, dá continuação à temática do seu ensaio exclusivo, uma exploração do mistério da criatividade, do motivo que impulsiona um escritor a escrever, e faz desta história a sua homenagem ao tema, uma ode aos livros e a novas descobertas, ao que está na origem da escrita, ao que leva um escritor a transpor em palavras sentimentos, eventos e determinados personagens.

Através de um discurso na terceira pessoa, oferece-nos uma visão externa da situação, de uma forma congruente com o ponto de vista da personagem principal, através da sua descrição do dia fatídico, com o passar das décadas.

O que inicia com o brilho dos dias primaveris vai perdendo a sua luz até ao desvendar da tragédia, o ponto negro da narrativa, que vai simbolizar a “morte” e “renascimento” de Jane, alterando o rumo da sua existência, para sempre e de forma inesperada.

Swift, apresenta-nos uma sociedade fraturada, ao estilo de Downton Abbey, ilustrando uma sociedade inglesa aristocrática, que pós 1ª Guerra Mundial, se vê afetada no seu núcleo e forçada a alterar o seu estilo de vida.

As grandes casas senhoriais viram o seu pessoal reduzido, as suas vidas tornaram-se menos luxuosas, tentando, porém, manter sempre as aparências.

É numa destas casas que Jane Fairchild, uma jovem serviçal, desempenha as suas funções.

Ela nascera em 1901 – pelo menos, o ano devia estar certo -. e cresceria para se tornar criada, algo que qualquer pessoa podia ter previsto. Mas tornar-se escritora – isso ninguém teria imaginado.

Jane Fairchild, jovem nos seus vinte anos, orfã, tem no Sr.Niven um patrão atencioso, que talvez por ter perdido a sua prole, repara nas qualidades de Jane, dado que esta demonstra ser mais inteligente do que a suas companheiras, o que lhe confere algumas permissões extra, tal como usufruir da biblioteca e do seu conteúdo.

Oferta essa, que Jane desfruta com agrado, mas não mais do que a relação, de cariz sexual, que desfruta com o filho dos vizinhos, Paul Sheringham, há mais de sete anos.

(…) orfã, criada, prostituta. (…) E amante secreta. E amiga secreta. Ele dissera-lhe aquilo uma vez, “És minha amiga, Jay”. Dissera-o claramente. Deixara-a atordoada. Nunca lhe tinham chamado aquilo (…)

Paul Sheringham, o herdeiro dos Sheringham, um “um puro-sangue”, um garanhão viciado em apostas nas corridas de cavalos, é amante de Jane, embora esteja noivo de Emma Hobsday, uma dama da alta sociedade.

A relação entre Paul e Emma não parece ser outra além de uma transação comercial, um casamento de interesse, para manter as aparências e o património; enquanto que com Jane, os seus interlúdios sexuais têm um tom diverso, onde Paul permite por vezes uma inversão dos papéis, denotando e evidenciando as qualidades de Jay.

Numa das suas escapadelas, algum tempo antes da cerimónia de matrimónio prevista de Paul e Miss Hobsday, Jane vai encontrar-se com Paul na sua casa, algo sem precedentes e deveras surpreendente.



Depois do seu interlúdio sexual, Paul não parece muito incomodado por estar atrasado para o seu encontro com a sua noiva e leva o seu tempo a preparar-se, momento que Jane absorve com atenção, recordando cada acção.

Ela iria meditar naquilo como se fosse um excerto que talvez precisasse de ser reformulado (…) Em seguida, ele partiu. Sem se despedir. Sem nenhum beijo tolo. Só um último olhar. Como se a estivesse a esvaziar, como se a estivesse a beber.

Alheia à tragédia que tinha tido lugar, não muito tempo após a partida de Paul, Jane irá passar as horas seguintes imersa numa realidade diversa, desfrutando da casa e da sua biblioteca, interpretando cada recanto, cada livro, cada sensação.

Todas as cenas. Imaginá-las era apenas imaginar o possível, ou até mesmo prever a realidade. Mas também era conjurar o inexistente.

Um instante, um só momento, irá dar lugar a uma tragédia, ao passo que essa mesma tragédia vai ser o símbolo, o ponto de partida de Jane a criada, rumo a Jane a escritora.

Jane irá iniciar um novo percurso na sua vida, com novas oportunidades, que irão potenciar a sua metamorfose definitiva, sem nunca esquecer o ponto catalisador que a conduziu até ali.

Durante toda a sua vida iria tentar vê-lo, trazer de volta aquele Dia da Mãe, apesar de se tornar mais vago, apesar de a sua própria razão de se ter tornado uma raridade histórica, uma tradição de outra época.

O Domingo das Mães, de Graham Swift, é um conto sobre romance, tragédia e metamorfose, que além do aspeto romântico e de desenvolvimento pessoal de Jane, glorifica o trabalho de um escritor, expondo o que existe por detrás do pano e o que estimula a mente criativa de um autor.

"Como Parar o Tempo" de Matt Haig


Um homem atemporal, uma sociedade secreta e uma regra primordial: Nunca se deve apaixonar.
Uma história de amor que vai desafiar tudo o que acredita e o vai ensinar a viver.
A primeira regra é não se apaixonar (…) Se cumprir isto à risca, vai correr tudo bem.

O mais recente livro do britânico Matt Haig, cuja ação é sublinhada primordialmente pela noção do tempo e as vidas necessárias para se aprender a viver, Como Parar o Tempo (TopSeller, 2017), é um excelente romance de ficção científica e uma emocional aventura pela anos da Inquisição, William Shakespeare, Capitão Cook e F. Scott Fitzgerald .

Era essa a lição do tempo que nos era familiar. Tudo muda e nada muda.

Haig é um pintor que distribui cor num mundo sombrio repleto de desconfiança, medo e maldade. A cada pincelada retrata o lado luminoso e negro da condição humana, sem deixar de dar um toque de esperança a cada momento, a cada ação.

Age como um psicólogo que avalia e analisa as mais profundas e complexas camadas da psique humana e possui uma capacidade curiosa, poderosa e aprazível de unir ficção e realidade, num discurso fluído e apelativo, com capítulos curtos e concisos, que leva o leitor a navegar entre as páginas como um verdadeiro viajante no tempo.

Ao aliar momentos leves que permitem atenuar a sombriedade do personagem principal, sustém uma ponte que serve de ligação entre as dúvidas do presente e momentos chave do passado e transforma as páginas num elixir que deleita e seduz, ao longo do percurso, a querer saber mais sobre Tom e as suas experiências passadas.



Cada frase, cada parágrafo remete o leitor para o reino da ficção científica mantendo, constantemente, características que o prendem à realidade, oferecendo o melhor de dois mundos.

Eu não sou uma pessoa. Sou uma multidão num só corpo. (…) Em suma, perdi-me.

Tom Hazard não é quem aparenta ser. A olho nu parece um simples homem de 40 anos, mas a verdade é repleta de perigos.

Com 439 anos, tem vindo a ser perseguido ao longo da sua vida por ser ‘especial’. Ele sofre de uma patologia rara, denominada ‘anageria’, uma condição que lhe permite parecer séculos mais novo do que realmente é. Mas contrariamente a ser considerada uma dádiva, é o que serve de cataclismo na vida do personagem, ao provocar a morte de todas as pessoas que ama.

Ele é um ‘Alba’, membro da sociedade secreta Albatroz, descrita como “um sindicato que trabalha para o bem coletivo”, uma organização que visa proteger todos os Albas dos riscos que a sua condição acarreta no mundo exterior.

Atormentado pela sua patologia e os danos que derivam da mesma, mostra-se um personagem soturno, imerso em trevas, resguardado do sofrimento num profundo estado de dormência latente, em busca de um propósito na vida.

Existe, porém, um motor que conduz este personagem a debater o propósito da sua amargada existência, da sua condição, os deveres para com a Sociedade Albatroz e os sacrificios de que daí advêm.

A organização não é o que aparenta, nada mais que um jogo de espelhos para criar uma falsa sensação de segurança e, num estilo muito semelhante ao da Máfia, possui diversas faces. Se Tom deseja continuar a usufruir da protecção da sociedade, terá, como qualquer outro Alba, de cumprir certos requisitos, caso contrário sofrerá as consequências.

Nunca estar muito tempo no mesmo lugar para não levantar suspeitas, recrutar novos Albas, evitar que o segredo saia à luz e nunca, acima de tudo, apaixonar-se.

Cansado de fugir do passado e de si mesmo, no meio de uma crise existencial, volta a Londres e retoma o nome de Tom Hazard, nesta vida, professor de História.

Crendo não existir ninguém melhor para ensinar o tema, que alguém que passou pela História, embarca na sua nova vida e profissão, embora temporárias, desconhecendo que ao mexer no passado irá ver-se imerso em momentos dolorosos das suas vidas anteriores que o irão ajudar a confrontar os fantasmas que o perseguem e aventurar-se a viver, sem medo, o presente.

E, tal como basta apenas um instante para se morrer, também basta apenas um instante para se viver.

Ao conhecer Camille, a simpática, atraente e perspicaz professora de Francês, uma ‘efémera’, vê-se confrontado entre cumprir as regras da Sociedade e a oportunidade de ser feliz novamente.

Mas será ele capaz de deixar para trás todos os seus receios e arriscar tudo por amor?

“O Diabo, O Relojoeiro e a Máquina dos Sacrifícios” de Michael Marshall Smith



Imagine, se não se importa, a oficina de um relojoeiro. (…) (…) É que se não estiver preparado para ouvir o que eu tenho para dizer, nada disso resultará.

Este novo livro do escritor britânico, autor bestseller de thrillers, literatura fantástica e guionista, Michael Marshall Smith, cuja acção é sublinhada pelo destino, auto-descoberta e o desafiar do que acreditamos ser certo na vida, O Diabo, o Relojeiro e a Máquina dos Sacrifícios (Topseller, 2017), é um excelente exemplo de união entre o fantástico aliado a humor, que vai prender o leitor desde a primeira página.

A vida não é como um relógio de pulso ou um relógio de parede. Não a podemos construir e depois dar-lhe corda, pela primeira vez, para a pôr em marcha.
Não há início. Estamos sempre a meio.

Michael Marshall, apresenta uma elaborada história, de contornos surpreendentes com personagens interessantes, cada uma com relevância para a evolução das descobertas e dismistificações de mitos, página a página.

Como em qualquer história deste autor, o único aspecto negativo, destas 381 páginas, é o de terminar muito cedo, deixando o leitor ansioso por mais.

Com uma capa, que convida até os mais novos a pegar no livro, capítulos curtos e concisos, um discurso directo e apelativo, que deleita e instiga o leitor não só a ler mas, também, a imaginar e ser parte da história, recheado de descrições pormenorizadas aliadas a algum humor, como se estivesse a oferecer um doce, lentamente, a quem se aventura a entrar por esses caminhos, o autor confere a cada interveniente nesta narrativa, momentos-chave para deslindar o mau funcionamento da máquina, criar alianças, onde de outro modo, não seriam possíveis, e conferir um pouco de harmonia e resolução à vida de Hannah Green.

Mas todas as histórias, precisam de nós para sobreviver.(…) Os seres humanos e as histórias complementam-se. Nós narramo-las, mas elas também nos narram, alcançam-nos com as suas mãos suaves, e acolhem-nos de braços abertos, envolvendo-nos no seu enleio. (…) Foi isso que aconteceu a Hannah Green. Foi apanhada numa história.

Num mundo onde nada é o que parece, tudo parece indicar que a vida não é nada mais que um jogo de ilusões, onde o Diabo fez uma pausa forçada, a Máquina dos Sacrifícios deixou de funcionar como devia, o Engenheiro tem de revelar uma verdade há muitos anos escondida e a pequena Hannah Green vê a sua vida virada do avesso.

Hannah era uma alegre menina de 11 anos que, após a separação dos pais, começa a considerar que forças malignas influiram na sua vida e que esta é, sumamente, demasiado comum e desprovida de emoção.

Presa à realidade de viver com um pai, sempre triste, e uma mãe ausente, Hannah crê que já nada no mundo é igual ao de antes e tem toda a razão. Só desconhece até que ponto.

É aqui, que o Diabo vai fazer das suas e envolver a jovem Hannah nos seus esquemas.

Entretanto, no Palace Hotel, em South Beach, Miami, um velho dormitava na esplanada. (…)
Naquele dia, o velho acordaria de um sono bem mais profundo.

O Diabo, senhor do Inferno, acorda do que, aparentemente, foram umas férias forçadas, esgotado e ciente de que algo está mal.

Em busca do Engenheiro para arranjar a máquina, depara-se com vários obstáculos pelo caminho, e certos adversários, os chamados Vigilantes, que vão tentar de tudo, além dos limites, para impedir que ele recupere a máquina.

No meio de todo esse rebuliço, procura o auxílio de um demónio de acidentes, um ser, já de si, puramente desastrado, de nome Vaneclaw.

Este demónio, de aspecto semelhante a um enorme cogumelo exótico, repleto de bolor, é sem dúvida, uma das personagens mais simpáticas e engraçadas, que ilumina cada momento em que está presente, literalmente.

O Diabo deu uma grande palmada na cabeça de Vaneclaw e o demónio ficou ligeiramente luminoso, como uma enorme luz de presença, espalhando luz suficiente para que vissem onde estavam. No fundo de uma perigosa e gigantesca fenda, gelada e húmida, no meio de nenhures.

Mas não será apenas Vaneclaw que irá acompanhá-lo nessa louca e empolgante montanha-russa, de encontros e desencontros.

Hannah e o avô Erik, são os primeiros a entrar nesse comboio alucinante, seguidos da Tia Zo, do pai Steve, e até a mãe Kristen se vê em apuros.



Os momentos mais envolventes deste livro, são aqueles onde se mostra e se desenvolve o relacionamento cândido entre Hannah e o avô, a quem a mãe considera esquisito e que constrói sempre esculturas pavorosas.

Mas este avô não é um homem normal, nem pode ser, afinal ele é o Engenheiro, o homem responsável pela construção da Máquina dos Sacrifícios e quem o Diabo procura, tão intensamente.

Um homem dócil e hábil que, após a morte da sua mulher, deixou tudo o que tinha de material e o mantinha enraizado, e se transformou num ser livre de correntes, excepto aquelas que, metaforicamente, o mantinham unido ao Diabo.

O Engenheiro levantou-se, aproximou-se, abriu calmamente as portas de correr e olhou o velho de fato, de cima a baixo.
Por onde diabos tens andado?
Era uma velha piada entre eles.

Sim, o Engenheiro é o famoso relojoeiro, tem mais de 300 anos e é o guardião da máquina.

Mas a sua família não sabe deste segredo, isto é, até o Diabo o encontrar na cabana, onde está com Hannah e os levar em aventuras desde a Sibéria ao Além, uma versão do Inferno onde os vivos vão parar.

Passo a passo, a escuridão aumenta e respira nos seus pescoços, o tempo corre contra eles, e as hipóteses de encontrar a máquina, que no, entretanto, se extravia, diminuem vertiginosamente.

Em simultâneo a esta viagem, Hannah começa, finalmente, a entender, pouco a pouco, e nos limites do que a sua idade lhe permite compreender, o porquê dos pais não estarem juntos, ao passo que aprende a aceitar o que tem na sua vida simples e comum, sob o olhar atento do velho de fato.

É brilhante, a forma maravilhosa e real, como o autor aborda os sentimentos desencontrados e a confusão nos pensamentos da jovem Hannah, ao mesmo tempo que a lança num mundo surreal, por vezes assustador, que desafio a desafio, a impulsiona a enfrentar os seus próprios medos e a lutar pelo que quer, no meio do caos.

É uma história que envolve, palavra a palavra, momento a momento, e em que o leitor, dificilmente, consegue parar de ler sem ter terminado, por completo, o livro.

ALL SOULS CON 2019 | Antevisão

A All Souls Con , baseada na trilogia All Souls da autora americana Deborah Harkness, está de de regresso. A organização...