terça-feira, 14 de maio de 2019

"A Biblioteca Secreta de Leonardo" de Francesco Fioretti




A Biblioteca Secreta de Leonardo, do autor Francesco Fioretti (Marcador, 2019), é um thriller histórico, de contornos noir, onde o tão desejado encontro entre o artista e inventor Leonardo Da Vinci com o frade franciscano Luca Pacioli, é assombrado por um crime. Cabe a aos dois, recuperar o que foi roubado. Cabe a Da Vinci, descobrir o assassino, ao mesmo tempo que tenta decifrar um enigma escondido no quadro de Pacioli.

Francesco Fioretti faz jus aos seus profundos conhecimentos não só do Renascimento Italiano e Medieval, mas também do homem que escolheu como personagem principal para esta sua história repleta de mistérios e pormenores.

Deu um pulo seguro de Dante, sua personagem principal reverenciada, para se focar num artista hesitante, um génio na garrafa. Da Vinci, era um homem do seu tempo com uma mente mais avançada, amante do impossível, um artista que imaginava e criava muito, deixando tudo a metade. Sendo tão progressista para o seu tempo, não é de espantar que tenha sido o eleito como o investigador curioso, neste thriller.

Este livro é uma pintura, rica em detalhes, de uma Itália pós Medici; bem como da vida e obra de Leonardo Da Vinci nos seus anos mais prolíferos, que permitirá ao leitor entender mais sobre o artista, o meio que o rodeava e os tempos turbulentos que se faziam sentir.

O frade subiu lentamente as escadas, no cimo das quais deu por si, de repente, na "fábrica". (...) seria muito difícil conseguir imaginar os antigos usos daquele salão: as festas, as danças, as cerimónias solenes. Era mais o caos primordial, ou como sempre imaginara que fosse a forja de um feiticeiro.

Leonardo, aficionado da matemática, aguarda a chegada do frade Luca Pacioli, o qual, ele espera, possa ensinar-lhe mais sobre os mistérios da matemática; porém sofrem uma série de desencontros.

Será Pacioli a deslocar-se ao estúdio de Leonardo, onde se depara com Salaí, que além de ladrão, lhe parece um mentiroso crónico.

Ansioso para sair daquele local, marca novo encontro com Leonardo. É este, que algum tempo mais tarde, se desloca até onde o frade se hospeda, e entra na cela de Pacioli aguardando a sua chegada.

O que aí encontra, será determinante na avaliação de carácter do seu ídolo matemático.

(...) Uma cama simples, um genuflexório para as orações diante de um crucifixo, uma secretária contra a parede, uma estante para os livros, um arquibanco sob a frestão que dava para o claustro. (...)Mas, em pé sobre a secretária, simplesmente apoiado na parede, estava o retrato de um frade que devia ser ele mesmo, Luca Pacioli.

Porém, as dúvidas que assolavam a mente de Leonardo aquando da descoberta do quadro enigmático de Pacioli, tiveram que ficar, momentaneamente, relegadas para segundo plano.

A morte do vizinho de cela do frade, um ladrão acusado de ter furtado textos antigos bizântinos, e o desaparecimento quer das obras roubadas quer do assassino, impelem Leonardo a partir em busca de respostas, e culpados.

Os dois irão partir de Milão a Veneza, de Florença a Urbino, atravessando uma Itália muito diversa daquela dos tempos do Magnífico.

Mas os dois protagonistas desta história não podiam ter prioridades mais diferentes. Da Vinci acreditava ser mais importante encontrar o assassino, ao passo que Pacioli estava decidido a encontrar os volumes roubados.

Na busca por um culpado para satisfazer a ânsia por sangue, um homem é aprisionado e acusado do roubo, encerrando a investigação sobre o homicídio, mas os livros, esses, ainda continuam desaparecidos.

O contato estabelecido entre Da Vinci com o condottiero em casa de Giuliano di Medici, é decisivo para Leonardo.


(...)"Tens de voltar a Florença", (...) "Tens de encontrar aquele livro!" Ele aceitara a missão imediatamente. "Aquele livro" tinha necessariamente de estar com "aqueles livros", dissera a si mesmo. Só havia uma coisa a fazer: tinham de voltar a Florença e continuar com a investigação.

No entanto, já em Florença, a mínima menção aos códices de Mistras levava a que todos se fechassem em copas, evitando o tema ao máximo, como se desejassem apagar o incidente da memória. 

Infrutíferas as suas investigações em Florença, decide partir rumo a Urdino, onde é chamado à presença do duque, que o encarrega de fazer um mapa de Urbino e da zona circundante, em busca de fortalezas fracas e obsoletas, de forma a proceder à sua reestruturação.

Com a desculpa de necessitar mapas antigos para a pesquisa, resolve, então, requerer o salvo-conduto para lhe ser possível entrar na famosa biblioteca de Federico de Montefeltro, a única considerada capaz de concorrer contra a biblioteca de Lorenzo di Medici, e assim tentar a sua sorte, pois crê poder encontrar aí os manuscritos bizantinos que se esfumaram no ar misteriosamente.

Aquando da entrada na biblioteca, encontra outro visitante, perdido na imensidão de informação contida naquele local.

O visitante causa-lhe arrepios, chegando Leonardo a compará-lo a um gavião. Trata-se de Nicolau Maquiavel, embaixador da República.

Após uma apresentação um pouco áspera e hostil entre Leonardo e Maquiavel, a admiração pelo local onde se encontram leva a melhor. Entre manuscritos, códices e alguns livros impressos, a curiosidade e ansiedade de Leonardo leva-o a questionar Maquiavel sobre a existência e localização de volumes sobre as matemáticas e a física. O que impulsiona Maquiavel a mostrar-lhe algo que considerava muito estranho.

O que Leonardo encontra, deixa-o sem palavras.

Levou-o a um canto escondido na última das quatro salas da biblioteca. E ali voltou a vê-lo, e a vista cortou-lhe a respiração, como se tivesse chegado a um encontro há muito aguardado, como se sempre soubesse que, mais tarde ou mais cedo, o voltaria a ver: na parede estava o retrato de Luca Pacioli que Leonardo conhecia muito bem, com o jovem Gonzaga, o dodecaedro de madeira, o eicosiexaedron de cristal. Eis, então, o seu destino final.

Um dos mistérios estava apenas por revelar-se, mas não era apenas Leonardo que estava ansioso por decifrá-lo, o assassino, que ainda buscava os livros, estava a um bafo de distância.

Toma, então, lugar um jogo de gato e do rato .

Conseguirá Leonardo decifrar o enigma do quadro de Pacioli? Descobrirá os códices de Mistras antes que o assassino o mate? E se sim, o que fará com eles? 

A Biblioteca Secreta de Leonardo, de Francesco Fioretti, é um excelente thriller histórico, que além do óbvio mistério sobre quem foi e porquê, resolve um enigma matemático primordial para decifrar tudo.

Uma corrida contra o tempo, cheia de riscos e sérios perigos, no seio de uma Itália, em nada pacífica, onde as divisões ameaçam destruir o país.

Uma lição de História disfarçada por um conto repleto de suspense, surpresas e curiosidades.

(...) Assim Leonardo percebeu finalmente de que parte do alinhamento neo-platónico estivera, sem saber, durante todos aqueles anos. Era a parte certa, disse para si mesmo, embora não a vencedora. Pelo menos por enquanto.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

"Amor e Poder" de Diana de Cadaval



Um hino ao passado, ecos de romances que até aos dias de hoje são tema de discussão e interesse. 

Uma coleta de histórias, onde os sentimentos, o dever e o poder são os principais intervenientes. 

Amor e Poder, de Diana de Cadaval (Manuscrito, 2019), é uma compilação de algumas das mais inesquecíveis histórias de amor,  escolhidas a dedo pela autora, sobre a vida emocional e os tormentos de dez casais de renome. O amor entre sangue, lágrimas e lutas de poder.

Acredito piamente que o amor está na base de tudo. Não podemos viver sem amor. (...) o amor tem muitos contornos.
É um sentimento poderoso, avassalador mas também misterioso, cuja definição ou verdadeira compreensão nos escorrega por entre os dedos. Um sentimento capaz de ganhar batalhas, derrubar muros e de conquistar tudo, mas também de deixar um rasto de dor e de destruição atrás de si.

Dez histórias de amores atribulados, acordos estabelecidos entre reinos, amizades duradouras, contos de fada repletos de glamour e sacrifícios...

Escolhi, e é sem dúvida uma escolha pessoal, dez casais sobre os quais escrever tentando enquadrar a sua história de amor na época, no contexto político e histórico e nos usos e costumes daquele tempo.

A Duquesa de Cadaval escolheu de entre um vasto leque de histórias reais, repletas de dor, angústia, e ligações amorosas, as que mais lhe atraíram o interesse;  e, através de uma forma sucinta, soube limitar as suas descrições ao essencial de cada uma, sem delongas ou descrições desnecessárias. Além do mais, possuir a capacidade de condensar um sem fim de informação em poucas páginas, é já de si um feito admirável.

Começamos pelo famoso casal António e Cleópatra. (...) Para esta mulher, o amor, a beleza e o seu corpo foram poderosas ferramentas usadas a seu favor na política. Mas também amou verdadeira e genuinamente Marco António (...) Com ele viveu uma relação tão intensa e tumultuosa como a mais feroz tempestade do deserto (...)

Certamente que uma das histórias mais faladas e representadas, em literatura, teatro e cinema, é a do amor de uma rainha tão poderosa, que embeiçou não apenas um, mas dois romanos nos principais cargos do Império Romano.

Falo claro, da magnífica Cleópatra, a "reencarnação de Ísis na terra" como a própria intitulava ser, e das sua ligações perigosas com o Império Romano.

Mulher de armas, especial artífice, mestre na arte da manipulação e estratégia, não foi de estranhar que capturasse o olhar e carinho do imperador César; mas não seria este o seu grande e devastador amor, mas sim, Marco António, um dos três líderes do maior exército do mundo. 

Será a seu lado que desempenhará diversos momentos históricos que mudaram as suas vidas, o Egito e o Império Romano.

Seguimos para a história de amor insano e efémero entre Joana, a Louca, e Filipe, o Belo. Um amor que persistiu para além da morte.

Joana, uma princesa espanhola, filha dos Reis Católicos, vê o seu destino unido ao de Filipe, filho do Imperador do Sacro Império.

Um amor, dito, à primeira vista, convertido numa tormenta para Joana, que assiste desconsolada às traições non-stop do seu esposo, ao passo que dá à luz os herdeiros da Coroa, entre os quais, Carlos V, que viria posteriormente viver uma história de amor com a princesa Isabel de Portugal (história não retratada neste livro).

Este curto e doloroso amor viu-se manchado pelas intrigas, traições e ciúmes, e nem a morte de Filipe impediu Joana de continuar a amá-lo cegamente para a eternidade.

Conhecemos o amor trágico de Ana Bolena e Henrique VIII; por ela, este rei divorciou-se da sua mulher de vinte anos, rompeu com a Igreja Católica, quebrou todas as regras...

Sem dúvida, o tão afamado romance entre Henrique VIII e Ana Bolena foi, literalmente, de cortar a cabeça.

Uma paixão desmedida, leva Henrique VIII a procurar diversos esquemas para se ver livre de Catarina de Aragão, filha dos Reis Católicos, e sua esposa de mais de duas décadas.

Ao ver os seus planos frustrados, Henrique VIII decide tomar uma decisão que vai mudar a Inglaterra como até ao momento se conhecia. 

Rompe com Roma, e cria a sua própria religião, o Anglicanismo. Mas o seu único propósito é o de cumprir com os seus desejos e casar-se com Ana Bolena, uma jovem que tanto o impressionou que o conduziu a extremos.

Mas um amor começado de forma tão dramática não poderia ter bom fim, e após não obter o tão almejado herdeiro da mulher pela qual mudou tudo, condena Ana à morte.

O amor de Ana é tal, que o perdoa até na hora da morte (ato que poderia ser a sua última tentativa em recuperar o amor do Rei), mas o seu destino já estava traçado e Henrique já tinha novo amor.

Fica, então, selada e imortalizada a história de Ana dos Mil Dias, um amor intenso, mas fatídico.

Não menos trágica e tumultuosa é a história da princesa Margot e Henrique, Rei de Navarra. Uma história que começa aos três anos, que cresce num amor genuíno, marcado por afastamento, guerras e sangue e que acaba numa amizade fraternal.

Margarida de Valois e Henrique VI e França, são criados juntos na Corte Francesa, prometidos desde os três anos, o afeto que sentem um pelo outro é inocente e genuíno, mas ver-se-à marcado pela tragédia e por guerras que os levarão a afastamentos.

Com um noivado desfeito, Margot sabe que tem que deixar o seu amor juvenil ir, e cumprir com o seu dever. O que não a impediu de se apaixonar, no entretanto, por Henrique de Guise. 

Mas o dever fala mais alto, e todos os esquemas de Catarina de Médicis falham, conduzindo ao plano inicial de casar a sua filha com Henrique de Navarra, o seu primeiro amor.

As Guerras da Religião serão, em grande parte, a suprema razão que os levará a estar em campos opostos, obscurecendo a sua relação e provocando atritos intransponíveis, mas as traições e os enganos irão  terminar o seu amor idealizado, deste apenas restará uma serena e inesperada amizade.

Continuamos com a nossa D. Catarina de Bragança, a única portuguesa que foi rainha de Inglaterra, e Carlos II. Um amor não correspondido, que não viria a dar os frutos necessários para garantir a tão desejada sucessão no trono britânico.

Catarina de Bragança casou com Carlos II, uma ligação por poder, como tantas outras, mas certamente esperaria obter mais do que teve.

Vinda de uma corte rígida e austera, nada a terá preparado para a realidade que a esperava na corte do marido, um autêntico local de festas e traições amorosas.

D. Catarina seria até hoje reconhecida pelo bens e costumes que introduziu na corte inglesa, mas a sua vida foi tudo menos benéfica.

Confrontada com os filhos ilegítimos do marido e as paixões às quais ele não se coibia de usufruir, sentia-se muito só e desprezada. O amor que poderá ter pensado ir viver, nunca chegou e as pressões que sofreu foram terríveis.

A falta de herdeiros, seria o ponto apontado para a pressão exercida. Todas as gravidezes de Catarina não chegaram a bom porto, e após cada uma, a sua saúde ficava severamente debilitada. E como se a falta de herdeiro não fosse suficiente, ainda tentaram implicá-la numa conspiração contra o rei.

Porém, é de salvaguardar, no entanto, que apesar de não amar loucamente Catarina, Carlos II nunca cedeu ao Parlamento, negando até ao fim divorciar-se da mulher.

Diz-se que a última palavra saída dos seus lábios, antes de fechar os olhos, terá sido o nome de Catarina.


Passamos para uma personagem que já romanceei no passado e que me fascina: D. Maria Francisca de Saboia e os seus dois maridos. Um processo absolutamente escandaloso de separação de um irmão para se casar com o outro, com uma personagem que permaneceu sempre ao seu lado, fiel, companheiro e amigo, Nuno Álvares Pereira de Melo, 1º duque de Cadaval.

D. Maria Francisca e os seus dois maridos: um escandaloso caso que abalou as estruturas de Portugal.

Inicialmente esposa de D. Afonso VI, D. Maria Francisca será uma peça fundamental, e ver-se-à envolvida num arriscado jogo político. 

Numa manobra, repleta de conspirações e intrigas, após dois anos numa corte dividida, D. Maria Francisca pede a anulação do seu casamento, alegando que este não foi consumado. Ainda virgem, está então apta para casar com o, outrora, cunhado, D. Pedro, que no entretanto havia deposto D. Afonso VI e tornado-se regente.

Mas a verdadeira história de amor não é entre D. Maria Francisca e os seus esposos, mas sim com o 1º duque de Cadaval.

Um amor, ao que tudo indica, fraternal, cheio de apreço, confiança e devoção, que terá durado inclusive depois da morte da rainha.

Continuamos com uma personagem que os portugueses não simpatizam muito, D. Carlota Joaquina, e o seu marido, o rei D. João VI, sobre os quais tanto se tem escrito. Uma história onde paz e harmonia não são certamente as palavras mais utilizadas para a descrever.

Casada desde os 10 anos com D. João, 8 anos mais velho, Carlota Joaquina ficou a encargo da sogra, D. Maria I, mas a pequena vinha com um aviso, de feitio forte, nada nem ninguém conseguia manobrá-la.

E assim, seguiu Carlota, não obedecia a nada nem ninguém. Quando D. João se consagra rei, Carlota que no entretanto já tinha cumprido com a sua função de assegurar a sucessão à coroa, ambicionava a função suprema de rainha.

Mas eis que D. João não confia na sua jovem esposa e com toda a razão.

Entre conspirações, a ameaça de Napolão, e um retorno a um país alterado, dá-se um golpe denominado "Vila-Francada", e Carlota é a rainha da jogada.


Após uma aparente reconciliação, dá-se um novo golpe, mas nada será o mesmo.

Passamos para outro casal que também se conheceu na infância, mas que, ao contrário de Carlota e de João, se amaram verdadeiramente. Nicolau, o último czar da Rússia, e o seu amor arrebatador por Alexandra. Lutaram para casar, mas o seu amor estava marcado por um mau presságio.

Apaixonados desde a infância, vêem o seu amor proibido por todos. Considerada pouco para Nicolau, vê na sua própria família entraves para a sua união. 

Ao passo que recusa outros pretendentes, Nicolau apaixona-se por uma bailarina. 

O pai de Nicolau, após adoecer e vendo a insistência de Nicolau em casar apenas com Alexandra, sabe que a única maneira de salvaguardar o poder é permitir o seu casamento.


Mas tudo começa mal, uma boda seguida de um funeral e uma coroação sangrenta são péssimos prenúncios do que virá e o destino não brinca. 

A tragédia bata à porta, e todos são assassinados. Mesmo assim, Nicolau e Alexandra terão o seu amor imortalizado, e a sua família será das mais conhecidas até aos dias de hoje.

Quase a terminar, conto-vos o amor de Eduardo de Inglaterra pela divorciada americana Wallis Simpson. Há amor maior? Maior prova do que abdicar do trono de Inglaterra por amor a uma mulher? Mas também nesta história, o amor mostra-nos as suas esquinas, por vezes demasiado afiadas tal como um diamante em bruto.

Eduardo, herdeiro ao trono de Inglaterra, será o protagonista de uma das histórias mais badaladas e escandalosas da Casa Real Britânica.

Numa festa conhece Wallis Simpson e o seu segundo marido. Impressionado com a inteligência e audacidade, Eduardo cai pelos seus encantos e tornam-se amantes.

Mas quando Eduardo se torna rei, tenta de tudo para ter Wallis a seu lado como legítima esposa e sua rainha, mas os seus planos não seguem como esperava.


Confrontado com a impossibilidade de cumprir os seus desejos, e consciente de que será deposto mais dia menos dia, abdica do trono mas nunca de Wallis.

E fechamos com chave de ouro, com uma história feita com os ingredientes de um filme de Hollywood, entre a maravilhosa Grace Kelly, atriz norte-americana, e o príncipe Rainier do Mónaco. Um amor idílico que nos faz suspirar ao olhar para as magníficas fotos do seu casamento e acreditar nas verdadeiras histórias de amor. Uma atriz que troca a sua carreira em ascensão para desempenhar o maior papel da sua vida.

Chegamos ao conto de fadas. O casamento de sonho entre a lindíssima Grace Kelly, diva de Hitchcock e um galã cobiçado do Mónaco, o príncipe Rainier.

Grace era uma mulher inteligente, independente, alguém que lutou muito pelo que tinha, apesar das importantes ligações familiares.

Detentora de grande beleza, com os atributos descritos anteriormente, era inevitável que captasse a atenção do príncipe.

É durante as gravações de um filme no Mónaco, que o príncipe decide tentar a sua sorte, e a mulher que encontrou era tudo o que esperava.

Após um tempo escondendo a relação, Rainier pede Grace em casamento, e realidade atinge Grace como um bafo de ar frio. A partir daquele momento, teria de deixar a sua carreira para trás.

De entre algumas gravidezes falhadas, terão três filhos: Carolina, Alberto e Stephanie.

É no carro, com a última, que sofre um acidente que lhe ceifa a vida em 1982 e deixa toda a sua família, e o mundo, em choque.

Um final abrupto e triste para tão lindo conto de fadas.

Amor e Poder, de Diana de Cadaval é uma ode aos diversos tipos de amor, e aos espinhos que acompanham essa rosa de nome Amor. 

Um livro perfeito para os amantes de História, e de casais emblemáticos que, por bons ou maus motivos, deixaram a sua marca no mundo. 

domingo, 12 de maio de 2019

"O Poder" de Naomi Alderman


E se de repente o mundo mudasse e as mulheres fossem detentoras do poder?


Esta é a premissa principal neste novo livro de Naomi Alderman, vencedor do Baileys Women’s Prize para Ficção (2017), onde se produz um câmbio que vai alterar o mundo como o conhecemos, e conduzir os seus habitantes até uma nova era; O Poder (Saída de Emergência, Bang!, 2018) é um romance repleto de ficção, com contornos alucinantes e, literalmente, electrizantes.

A forma do poder é sempre a mesma; tem a forma de uma árvore. Das raízes às pontas, o tronco central ramificando-se e voltando a ramificar-se, alastrando sempre com dedos cada vez mais finos e exploradores.

Naomi Alderman descreve uma realidade virada do avesso, ao apresentar ao leitor uma visão de um mundo afectado por uma súbita alteração de padrões, um simples acontecimento, que veio a desencadear uma série de reacções em cadeia, que, como seria de esperar, levam a consequências devastadoras.

O que a início poderia parecer uma ode à igualdade de géneros, e ao intitulado girl power, demonstra ser, precisamente, o contrário, evidenciando os efeitos e consequências dessa mesma contínua desigualdade. Não se trata de um caso onde homens e mulheres são detentores dos mesmos direitos e deveres, não; trata-se de uma simples inversão, onde as mulheres têm todo o poder e muitos, muitos anos de revolta e rancor, dos quais desejam vingar-se.

É um pouco como se o leitor, mente curiosa, atravessasse um espelho, e visse o mundo através da perspetiva do outro lado, onde as mulheres fazem tudo o que os homens, anteriormente, faziam, desde apropriação de material alheio, a torturas e violações em grupo… Uma visão aterradora e perturbante do que poderia vir a ser.

Não será de espantar, portanto, a apreciação positiva por parte da escritora de renome, Margaret Atwood, cujas obras abordam, precisamente, o tema de sociedades fraturadas, distópicas, com severas desigualdades de género, e até regimes de escravidão sexual. A Sra. Atwood, uma espécie de mentora de Alderman, afirma considerar este livro como:

“Eletrificante! Chocante! Vai abalar o seu mundo! E depois vai fazê-lo questionar tudo.”

E é exatamente o que este livro faz. O leitor vai ver-se imerso, rapidamente, numa sucessão gradual de eventos, a início surpreendentes, que vão escalar para situações chocantes, até atingir o limite do insustentável.

Irá colocar o leitor, numa posição de espetador de um futuro possível, levando-o a questionar o que seria de si nessa situação, o que poderia acontecer a si e aos seus, como terminaria? E acima de tudo, questionar a divisão dos papéis, e o poder atribuído a cada um; de uma certa forma, terminando a sua obra, promovendo através de innuendos, os ideais feministas da igualdade entre todos, uma sociedade homogénea, equilibrada.

Alderman demonstra como a falta de harmonia e essas mesmas desigualdades conduzem apenas a um cenário, um caos apocalíptico, que só poderá terminal no Dia do Juízo Final, através de uma limpeza, uma purificação das almas, um expurgo, que visa uma tabula rasa, de forma a recomeçar do zero.

O poder tem as suas formas de atuar. Age sobre as pessoas, e as pessoas agem sobre ele.



É interessante como tem início o livro, como se, se tratasse de uma simples troca de opiniões entre escritores, onde um escritor, do sexo masculino, apresenta a sua visão da Mãe Eva, daquele período da História, e de como esses eventos afectaram os seres do seu sexo. Um relato da História, segundo ele, com algumas liberdades criativas.

Será este o ponto de partida, que leva à introdução das quatro personagens de maior relevo na história, todas de diferentes ambientes, provenientes de contextos opostos.

Afinal o que poderão ter em comum, Roxy, adolescente inglesa proveniente de uma família de criminosos pertencentes à Máfia; Tunde, um jovem de 24 anos que deseja ser foto-jornalista; Allie, adolescente americana, que vive numa família adoptiva, tudo menos perfeita; e Margot, uma presidente de Câmara norte-americana? A olho nu, nada, mas aparentemente, tudo.

Cada um irá desempenhar um papel primordial nesta história. 

Roxy, nos seus 14 anos, será uma das primeiras a quem será despertado o poder, e será alguém muito venerado e poderoso; Tunde, será aquele que através de um simples acaso de estar no lugar e momento certo, irá gravar a primeira manifestação do poder, e dar início ao intitulado, Dia das Raparigas, desafiando sempre o destino, e arriscando-se a estar no meio das situações mais incertas e perigosas; Margot, será uma das principais defensoras das jovens com o poder, escalando mais e mais, a cadeia de poder; e Allie, passará de uma jovem abusada a uma posição suprema, tornando-se na Mãe Eva, a verdadeira profeta.

As suas vidas ver-se-ão interligadas, inesperadamente, ao passo que a situação irá tornar-se num cenário apocalíptico, imergido em caos, medo e luta pela sobrevivência.

Algo foi iniciado e precisa de ser concluído. (…) Afinal já o fizemos antes. Podemos voltar a fazê-lo. Desta vez, de uma forma diferente, de uma forma melhor. Demolir a casa antiga e começar de novo.

O Poder, de Naomi Alderman, é um romance fantástico, arrojado, desafiador do tradicional, polémico, que irá arrepiar o leitor até ao mais profundo do seu ser, e forçá-lo a destruir as suas barreiras, levando-o a questionar: E se?

A forma do poder é sempre a mesma: é infinito, é complexo, ramifica-se sem cessar. Quando está vivo como uma árvore, cresce; quando está contido em si mesmo, é multiplicidade. As suas direções são imprevisíveis; obedece às suas próprias leis. (…)
Não há forma para nada, exceto a forma que já tem.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

"Tenho de Saber" de Karen Cleveland


Que decisão tomar perante uma escolha impossível?


Este é o tema primordial, em torno do qual girará este livro da autora Karen Cleveland, onde uma analista, da área de contra-espionagem da CIA, se depara perante a decisão mais difícil da sua carreira, que vai afetar a realidade tal como a conhece, Tenho de Saber (Planeta, 2018), é uma narrativa repleta de intriga, traição e escolhas complicadas.

Karen Cleveland utiliza os seus anos passados como analista da CIA, para criar toda uma atmosfera crepitante, num ambiente de cortar à faca.

Uma história repleta de detalhes, séria e intensa, de um tom sóbrio e linguagem direta,  sem sombra de ironia, a não ser a do destino, com um leque de personagens complexas, realistas e credíveis, envolvidas em situações de perigo extremo, onde as apostas são extremamente drásticas e  dramáticas, algo que conduziria o mais comum dos mortais à loucura.

A narrativa envolve o leitor num mundo de intriga, desconfiança e traição, ao mesmo tempo que demonstra a complicada realidade de gerir os vários aspetos da vida de uma mulher independente: carreira vs família, amor vs pátria, proteção vs sacrifício.

Apesar de ter alguns momentos em que tudo parece bastante óbvio, o quem e como, bem como a arte do jogo de espionagem tornam-se ligeiramente mais arriscados e estrondosos. É em momentos como esses, que um poder-se-à sentir um pouco frustrado com a ingenuidade, a roçar cegueira seletiva de Vivian, esquecendo que a surpresa, as emoções e elos da personagem não lhe permitem ver o quadro completo de forma imparcial, algo que só é possível ao leitor por ser um espectador imparcial, logo mais racional e percetivo.

Ação leva a ação, o que termina num final, não de todo inesperado, mas ao mesmo tempo surpreendente.

Um desfecho, perfeitamente coadunado com o desenvolvimento da história, e das situações e interligações ao longo da mesma.

Estou habituada a estas frases em suspenso, às conversas evasivas na minha linha aberta. Presumo sempre que há alguém à escuta.

Uma mulher de família sai de casa para o trabalho, deixando o esposo encarregue da casa e dos miúdos.

Um dia como tantos outros, isto é, se o seu trabalho não implicasse investigações ultra secretas, e níveis de alerta e segurança ao mais alto nível.

Vivian é mãe de quatro filhos, tem um marido que adora e um trabalho de caráter extra sensível mas nem o seu mais duro treino de espionagem a podia preparar para o choque que aí viria, e a dura realidade com que se iria deparar.

Após muito tempo encarregue do projeto Athena, composto por arquivos relacionados com os agentes russos “adormecidos”, ela encontra algo que a perturba, um rosto de alguém que lhe é muito próximo, demasiado próximo.

Continuo a busca, os olhos a saltar de ficheiro em ficheiro (…) Faço duplo clique na terceira imagem e outro rosto surge no ecrã. Um close-up. Tão familiar, tão próximo e natural (…)

Ainda atordoada com o que viu, crê que tudo não passa de um erro, um simples engano. Quem está na foto, não é quem parece ser.

Passado o seu estado de negação começa a pensar nas diferentes possibilidades: pode não ser um agente infiltrado, ou ainda não ter ser sido recrutado e estar na lista devido à sua ligação a ela…



A negação dá lugar à raiva, à deceção, à incredibilidade da ridiculez da situação. Como poderia uma analista ser tão cega? 

Como pode ter falhado em entender os sinais, que tudo não passava de um jogo entre o gato e o rato, e que ela... ela era o alvo pretendido.

Levo a mão à boca e apercebo-me de que estou a tremer.
Para os russos, não foi uma questão de sorte. Tinham preparado tudo. Todos os movimentos foram intencionais, planeados. Não se tratou de um acaso.

Essa raiva que vai tomando posse de si, leva-a a confrontá-lo, mas nada a tinha preparado para o que iria escutar.

-Só há uma coisa que podes fazer (…) – Denuncia-me.

Com esta reviravolta inesperada, Vivian é catapultada a um estado emocional e mental repleto de dúvidas e novas decisões são tomadas, estas quiçá equivocadas, conduzindo-a a lugares perigosos, e a extremos aos quais nunca tinha pensado sucumbir.

Entre proteger os seus, atraiçoar o País e os colegas, especialmente Omar e Peter, um o seu orientador e outro o seu chefe, ou denunciar o agente russo e sofrer as consequências do seu ato, qual será a sua decisão final?


Ergue a arma.
Vejo e oiço o que se segue. Gritos. Uma chuva de balas. (…)
E gritos, a princípio um som abafado, e depois mais alto, quando recupero a audição, e só então me apercebo de que são meus.

Tenho de Saber, de Karen Cleveland, é um thriller profundo, uma narrativa repleta de manipulação, com vários jogos da mente amplamente disfarçados, psicologia inversa e chantagem emocional, onde um é impelido a decifrar os mistérios e enganos, que conduzem até um desfecho satisfatório, amplo o bastante para que possibilite um seguimento da história, uma sequela deste livro, se a escritora assim o desejar.

terça-feira, 7 de maio de 2019

"Regresso à tua pele" de Luz Gabás


O poder do amor contra a morte


Regresso à tua pele, de Luz Gabás (Marcador, 2019) é um romance de carácter místico, onde duas histórias de amor estão interligadas pelo passado, pelo destino e por uma promessa eterna.

Um amor inquebrantável que irá desafiar as areias do tempo, um reencontro de duas almas separadas bruscamente que se reencontram quatro séculos depois.

 - Tu! - exclama , sentindo um profundo alívio.
Creio que também o conheço, que já o vi antes... Mas onde?
Aqueles olhos que me olham e me queimam, a quem pertencem?
E agora de novo... Que pouco dura o consolo!
Os gritos carregados de ódio e medo.
E aquela voz monocórdica que repete, uma e outra vez, palavras que não compreendo:
- Omnia... mecum...

Brianda é uma mulher com tudo para ser feliz. Engenheira bem sucedida, tinha com o seu companheiro Esteban uma vida aparentemente estável, mas essa estrutura ver-se-à abalada após uma série de sonhos aterrorizadores que a deixam mais e mais angustiada a cada dia que passa.

Após falhar duas apresentações e dar sinais de sofrer de uma depressão, repleta de angústia e ataques de pânico sem motivo, a mãe de Brianda, Laura, sugere-lhe uma temporada fora de Madrid.

Mas Brianda não está totalmente convencida de que voltar a Tiles, mais concretamente à Casa Anels será algo benéfico. As suas últimas recordações são um misto de alegria, medo e terror, em parte pelo contacto doce e carinhoso com a tia Isolina mas também pelo pavor que recorda sentir do tio Colau, uma pessoa austera e seca, brusco nas suas maneiras e feitio.

Mesmo reticente, um certo e determinado momento com Esteban , leva-a a decidir-se e pôr-se a caminho. Tiles é uma terra antiga, sem muito para a distrair mas o seu propício e inesperado encontro com Neli, trouxe-lhe não só uma amiga mas também ventos de mudança.

As suas passagens por determinados locais e pessoas evocam sensações estranhas, tão intensas que a desorientam até ao seu mais íntimo.

Sem saber como explicar o que ocorre, cai num estado cada vez mais depressivo até que um dia,  um misterioso estranho lhe cruza o caminho.

(...) Tinha as faces a arder, o coração batia-lhe com uma energia desconhecida e as mãos tremiam-lhe. Primeiro, a inscrição em latim; depois a visão na igreja; e agora, aquele homem ao qual estivera quase a chamar pelo nome, como se o conhecesse desde sempre.
Corso.
A partir deste instante nada será o mesmo.



Corso é um homem alto, de aspecto jovem com uma cicatriz bastante distinta que lhe marca as feições. Tudo naquele homem a desconcerta e emociona, como se o seu corpo chamasse e ansiasse por ele, desde sempre.

No decorrer da história, Brianda descobre várias verdades incómodas, uma das quais, a existência de uma antepassada sua com o mesmo exacto nome, Brianda de Anels e o seu destino fatídico. Brianda de Anels fez parte de um grupo de mulheres julgado, condenado e enforcado por suspeita de bruxaria.

Com memórias soltas e lembranças vagas a atormentá-la, o seu desejo de se voltar a encontrar com o belo Corso é cada vez mais intenso e a ligação dos dois mais e mais inexplicável, até que Neli sugere que Brianda consulte um médico especializado em regressão. 

Será a partir deste momento decisivo que as memórias enterradas no seu subconsciente virão à tona, gradualmente, e o que parecia uma ligação profunda, sem sentido aparente, irá revelar-se numa trágica e poderosa história de amor, que ultrapassou os tempos e a própria morte.

- E agora, agarra-te com força a mim.
Para se certificar de que ela o fazia, pegou nas rédeas com uma mão e apoiou a outra sobre as mãos entrelaçadas de Brianda, que se fechavam num abraço em redor da cintura dele. (...) Então Brianda segurou-se ainda com mais força.(...)
Desejou que aqueles pequenos movimentos constantes que a uniam mais a ele não acabassem nunca. Havia séculos que não se sentia tão tranquila, tão segura, tão completa.

Dúvidas e receios assolam os membros da Casa de Anels, as superstições estão ainda muito enraizadas naquele pequena terra e nos seus habitantes. Segredos escondidos à séculos ameaçam vir à tona.

 O que realmente aconteceu à Brianda do passado? Porque não se encontram registos do seu julgamento? O que aconteceu após a sua morte?

Poderá a história de Brianda de Anels e Corso de Lubich ter um desfecho diferente do que acontecera há quatro séculos atrás? Ou estarão ambos condenados a repetir o passado?

Regresso à tua pele, de Luz Gabás, é um romance interessante, apelativo e curioso, que utiliza aspectos fora do normal de forma a demonstrar o poder de um amor atemporal, uma busca incessante de duas almas, separadas cruelmente pelo passado, que tentarão evitar repetir o mesmo destino no presente.

Uma busca subconsciente e persistente, um amor eterno, e duas almas destinadas a reencontrarem-se.

- O tempo não me assusta.
- A mim também não, desde que estejamos juntos...


"Anassa" de Josh Martin


Andar por caminhos tortos até encontrar o certo


Sou a Anassa: a líder dos humanos que ainda restam na última ilha de Erthe, e hoje vou conduzir-nos para casa.

No novo livro de Josh Martin, Anassa (Topseller #Bliss, 2018), sequela de Ariadnis, os protagonistas Taurus, Etain, Ade, e Nove, ver-se-ão forçados a confrontar os seus receios e dúvidas, em meio a uma tomada ofensiva do seu território. Para tal, terão que descobrir não só como unir ambos os povos, antes de que seja tarde demais, mas descobrir-se a si próprios no processo. Será uma nova aventura para todos os envolvidos, marcada por caminhos tortuosos, repletos de armadilhas, inimigos encobertos, e novas descobertas.

Josh Martin apresenta, neste livro, uma escrita, igualmente, criativa, porém mais confiante do que em Ariadnis. Parece ter definido, mais a fundo, as personagens que criou, e permitiu-se desenvolver, não só, as imperfeições das mesmas, como, também, arriscar introduzir novos obstáculos, novos personagens, que irão abalar as estruturas, ao parecer, já estabelecidas, onde nada, porém, é o que parece.

Há seis meses, enquanto a Etain foi comunicar ao conselho o que tinha acontecido, fiquei com a Ade junto à rapariga que encontrámos no tronco oco da árvore. (...)Ela não era a Aula. Não era a Joomia. Era... alguém que se situava algures entre as duas.

Nesta sequência de Ariadnis, já quase um ano passou desde os acontecimentos ocorridos aquando da derrota de Nadrik e união de Aula e Joomia numa só pessoa.

As árvores estão diferentes, a ilha está diferente.

Caminho sem propósito nem direção. Não quero ninguém. Não quero nada. (...) Seria um alívio deixar-me desabar aqui, junto a esta árvore ou à próxima, deixar cair estas pedras que me comprimem o peito. Mas não me sai nada. Não sai a tristeza, nem sequer o alívio.


Etain tenta cumprir a profecia que a sua mãe, antiga profetisa de Athenas, envisionou para o seu futuro. É a Anassa, a líder dos dois povos. Porém, mesmo após o sacríficio das Escolhidas, e a liderança de Anassa, a situação está insustentável.

Inundada por dúvidas, e uma revolta interior, ver-se-à confrontada com as suas decisões, e terá a árdua tarefa de decidir crer, ou não, no seu destino como líder.

Porque Vi a mulher em que te vais tornar e Vi o homem em que o Taurus se vai tornar também. Vi todas as dificuldades que vais enfrentar. E Vi-te a ultrapassar cada uma delas.

As palavras da mãe atormentam-na. As saudades que sente dela, sofocam-na. A descrença verso a profecia, inunda o seu ser. A revolta contra a vida, aparentemente, mais fácil do irmão, em oposição ao que sempre lhe foi exigido, conduz a um estado de amargura intensa.

Mas sinto-me perdido.(...) Algumas pessoas são mesmo assim, perdidas. E não faz mal. Porque tentamos. (...)Mas a Joomia estava perdida, penso. E Aula estava perdida. E agora são uma única pessoa. Talvez seja isso de que preciso.

Taurus, por seu lado, também não está feliz com a situação em que se encontra. Descobriu ser a bússola, o 'instrumento' que iria ajudar a irmã no seu percurso de liderança, mas interiormente, almeja algo mais para si mesmo. O seu desejo de ser mais útil, as sensações ambíguas verso a Nove, deixam-no num estado de confusão e angústia perpétua. 

-As aranhas. As aranhas vão-se embora.

Apesar de todos os esforços de Etain como Anassa, do apoio por parte de Taurus, da Nove, e do conselho, composto por metisianos e athenesianos, a situação toma contornos graves, e chega a um ponto de ruptura.

Metisianos e athenesianos, expõem, agressivamente, as suas diferenças e ódios. Uma união entre ambos os povos é, cada vez mais, impossível de existir. E eis que um acontecimento imprevisto, coloca tudo de pernas para o ar e, provoca un abismo, ao parecer, intransponível.

As formigas fizeram um bom trabalho, ao espalharem-se tão minuciosamente. A sua estratégia funciona porque são seres muito simples: tão facilmente ignoráveis. (...) São invisíveis, mesmo para a Escolhida da Lore. E a única coisa que precisam de fazer é ficar nos seus postos e iluminar o caminho para o Vulcan.

Uma ameaça, até então, desconhecida, surge como um tsunami e revoluciona tudo o que eles acreditam ser a realidade. Vulcan, o líder do povo de Govinda, um tirano sem compaixão, invade Chloris e perturba a, já instável, situação na ilha.

Cabe, então, ao grupo de amigos, partir em busca da salvação do seu povo, e de si mesmos.

Conseguirão eles encontrar a resposta às suas questões? Conseguirão salvar o seu povo da escravatura a que estão submetidos? E qual será o preço a pagar?

Anassa, de Josh Martin, é uma aventura de auto conhecimento, de renascimento e sacrifício, com personagens imperfeitas, e caminhos já traçados. Um povo por unir. Um destino por cumprir. 

"Ariadnis" de Josh Martin


Uma profecia, duas Escolhidas


Somos aqueles que vieram depois do cometa.
Somos os que sobreviveram depois da Grande Onda. (…)
Estamos algures no meio, na casa d'A Sapiente: Ariadnis (...)

Este livro, que serve de debut para o jovem autor Josh Martin, cuja acção é sublinhada pelas incessantes lutas pelo poder e pela sobrevivência do mais forte, Ariadnis (Topseller #Bliss, 2017), é uma história de contornos fantásticos num mundo distópico, onde um povo dividido, se tenta elevar, seguindo fielmente uma antiga profecia, onde as Escolhidas de duas cidades se irão defrontar e só uma poderá triunfar.

Para o seu lançamento como escritor, Josh Martin apostou num público-alvo mais jovem, mais concretamente no género jovem-adulto. Utiliza uma linguagem directa, porém, por vezes um pouco confusa, com conteúdo explícito,  recorrendo a palavrões, sem exagero.

Demonstra possuir uma imaginação fértil, criando um mundo fracturado, onde após a tragédia, o seu povo adquiriu habilidades mágicas que lhes permitiu evoluir e sobreviver.

O que mais surpreende é o modo como o faz, guiando o leitor através dos olhos das duas adolescentes rivais, e também d'Os Escolhidos.

Conseguir transmitir os sentimentos desencontrados de duas raparigas, numa idade, já de si, complicada, onde estas estão rodeadas de pressões externas aliadas às suas próprias dúvidas existenciais, não é tarefa fácil.

Transmitir os sentimentos das protagonistas, bem como as agitações emocionais e políticas das duas comunidades rivais, e de um grupo específico de personagens secundárias, terá sido, sem dúvida, um desafio, mas um que este autor ultrapassou de forma positiva e aprazível.

Todos são importantes, todos têm relevância na história e para a história. É isso que emociona, a cada página, entender como tudo está interligado, por mais que os habitantes de Athenas e Metis desejem o oposto. 

Martin, estabelece duas cidades interligadas por nove árvores, mas as suas semelhanças terminam aí.

No topo está Athenas, a cidade em que as árvores estão ocas, preenchidas por maquinaria que mantém tudo a funcionar, detentora de uma ideologia moderna, envolvida pela tecnologia e indústria; no solo encontra-se Metis, onde as suas árvores estão vivas, detentora de ideais naturalistas, onde a ligação com a natureza e tudo o que dela provém, é valorizado.

Naquela altura achava que, se não fosse o penhasco, as nossas cidades seriam uma só e não haveria necessidade de nos encararmos uns aos outros com tanta ferocidade. Mas depois aprendi que é o orgulho, a tradição e a profecia, e estas coisas são ainda mais duras do que a pedra.


Em Athenas, desaprovam a permissividade sexual existente em Metis, sem regras, sem limites, onde é possível ter mais do que um parceiro, independentemente do sexo de cada um dos intervenientes, acreditam n'O Sapiente.

Em Metis, criticam a credibilidade dada a visões e profecias de Athenas e acreditam n'A Sapiente.

Athenas e Metis têm noções muito diferentes d'A Sapiente, sendo que a principal é que eles acreditam que é um Deus. E nós acreditamos que é uma Deusa.

Só existe um ponto em comum entre ambas cidades, a profecia que indica que aquando dos 18 anos, duas jovens, uma de cada cidade irá entrar em Ariadnis e passar pela prova final que permitirá adquirir o Livro da Omnisciência.

“Ela sou eu. Mas não é.
É como se alguém tivesse uma fotografia minha e a pintasse com cores diferentes, e o que mais me irrita nisto é que ela teve obviamente sorte nas cores que lhe calharam.”

Aula, de aspecto forte, intempestivo, a roçar o impulsivo, tem cabelo ruivo aguado e tom de pele amarelado .

Joomia, de carácter, aparentemente frágil, tem cabelo cor de ébano, tom de pele cor de amêndoa, sardas, e só alguns ouvem quando fala, necessitando sempre de um tradutor a seu lado.

Todos os anos têm que se apresentar em Ariadnis, local escondido, situado entre as duas cidades, para demonstrar o que aprenderam nesse ano, porém aos 18 anos a prova será diferente.

Será que vão dar ouvidos ao aviso d'Os Escolhidos, antes de que tudo esteja perdido? 

Taurus tem um carácter efusivo, arriscado, é sempre dado a aventuras e instiga Joomia, a sua melhor amiga, a perder os seus medos, de forma a que esta desperte o poder encerrado no seu interior.

Mas este ser aventureiro, tem um segredo, e irá desempenhar um papel relevante na vida de ambas as Escolhidas.

Etain, é a filha da Profeta-Principal de Athenas, Ashir, e é a melhor amiga de Aula. As duas são como irmãs, já que Ashir foi a única figura materna que Aula alguma vez conheceu.

Com cabelo, por vezes, chamuscado e cheiro a metal, apesar dos seus dotes na oficina, é a escriba de Nadrik, o Anax, o líder supremo de Athenas.

É ele, quem guia Aula até Ariadnis, e ele que a prepara, fisica e psicologicamente, para a prova final.

O seu equivalente em Metis, é a Anciã Mathilde, mentora de Joomia.

Mathilde é velha, exigente, mas nem por isso mais lenta de raciocínio ou acção do que a Escolhida.

Os seus treinos consistem em estimular o poder que Joomia possui, e que lhe permite comunicar com as plantas e com as árvores.

É mãe da frágil Ade, a Escolhida da geração anterior, que depois de prestar a sua prova, ficou debilitada, e que muitos consideram, louca.

Estes personagens, entre si tão diversos, estão unidos de uma forma surpreendente, e irá depender deles o futuro de todos os que os rodeiam.

... Sou a Aula, e eu sou a Joomia.
Por um segundo é assim que sou.

Este livro é interessante, misterioso, e apesar de ser, por vezes, um pouco previsível, consegue surpreender o leitor de forma agradável em vários aspectos; encerra a narrativa principal, porém,  deixa estabelecidos todos os alicerces para o seguimento de Ariadnis, o segundo livro de Josh Martin, Anassa.

ALL SOULS CON 2019 | Antevisão

A All Souls Con , baseada na trilogia All Souls da autora americana Deborah Harkness, está de de regresso. A organização...